Monday, May 03, 2010

Ele não sabe nada sobre Linguística (Continuação)

No melhor estilo romance policial, com enredo repleto de investigação, nossas palavras se cruzaram. Eu, no papel do investigador, buscando comprovar a minha tese de que ele não sabe nada sobre Linguística, direcionei perguntas objetivas. Sem falsa modéstia, fui didático em minhas questões e consegui o material de minha pesquisa.
Registro na continuação de dois textos anteriores o resultado de minha tese: "ele não sabe nada sobre Linguística at all".
Devo até ter me desviado de meu estilo de escrita neste espaço, mas acho que valeu a pena. A minha série íntima "Ele não sabe nada sobre Linguística" se encerra por aqui, com a informação de que ele busca saber algo que lhe dê um rumo na vida.


Ps: É fato, porém: He does know how to tempt me, mas hoje, sua quietude foi ainda mais interessante.

Friday, April 30, 2010

Ele não sabe nada sobre Linguística...

But he knows how to tempt me

Ele é aquele tipo que gosta de exibir o que, à primeira vista, tem de melhor: o corpo. Nem é tão bonito de rosto, mas seus braços e as divisões de seu abdômen lhe permitem não ter um rosto tão bonito.
Pela manhã, ele entra na academia portando a disposição que eu jamais terei. Ele faz alguns exercícios de alongamento e começa a trabalhar seu corpo. Tudo acontece como um ritual no qual ele é o deus a ser homenageado. Entre as partes do ritual, ele passa em frente aos espelhos espalhados pela sala de ginástica e se olha. Às vezes, levanta a camisa para enxugar a testa e acaba por deixar à mostra sua barriga sarada. Ou talvez, enxugar a testa seja mero pretexto para exibir o resultado dos abdominais feitos naquela máquina estranha (que a mim causa cansaço o simples fato de vê-la).
Mas hoje o silêncio rompeu-se. O cara, que continua sem saber nada de Linguística, vocalizou um cumprimento inesperado gerando tremor nas pernas de quem conhece a Linguística. É bem verdade que a Linguística ele não deve conhecer, mas ele soube muito bem como captar o olhar a ele devotado e utilizar-se desse conhecimento para provocar quem para ele olhou.
No fim da manhã, o cumprimento foi de despedida. O olhar do linguista continuou em direção a ele e as palavras do próximo ritual serão pragmaticamente intencionadas a descobrir sobre o que ele sabe. Confirmando-se que ele não sabe sobre Linguística, cumprirei meu papel de linguista e a ele tentarei apresentar as coisas da língua.

Friday, April 09, 2010

Tempo de hoje


É tudo uma questão de tempo. O tempo está correndo e é muito curto, não me sobra mais tempo. O tempo está passando e há tempos eu não o vejo. Sua lembrança é o que tem feito do meu tempo, um tempo menos doloroso. Ou será o contrário? Talvez sua lembrança de tempos atrás machuque ainda mais e arda sem parar em um peito que só tem tempo para sentir a saudade.
E hoje é mais um tempo na vida dele. Mas dói não estar junto a ele, ao menos pelo tempo de um beijo. É mais um tempo na vida e tudo me lembra que meu tempo é diferente do dele. É como se estivéssemos nos perdendo em nossos tempos íntimos e no tempo nosso em que não nos vemos.
Hoje é um tempo em que queria estar junto dele. Queria senti-lo, queria a certeza de que por um tempo eu não sentiria saudade. Mas, infelizmente, o hoje não é um tempo feliz e triste é a certeza de que por mais tempo sentirei sua ausência. Triste é sentir a dor que a saudade causa e, de tempos em tempos, parar para recolher os pedaços do meu coração. Coração marcado, surrado, fatalmente ferido pelo tempo da distância.

Monday, March 29, 2010

Mas ele não sabe nada de Linguística


Porque a aquele cara olhava-se no espelho para enxergar seu corpo perfeitamente definido. Não tive tempo de olhar, ou apenas não quis. Sabia que ele estava ali e isso já me era o bastante. Talvez não tenha sido minha vontade ver para não mostrá-lo a admiração que ele buscava ao exibir-se. Não é mais de mim mostrar admiração deste tipo. Vê-lo e, permitir que ele sentisse a si mesmo como alguém visto e admirado, faria de mim apenas mais um no meio daqueles corpos ansiosos por definição física. Muito embora admirasse alguns dos corpos ali exibidos, não queria ser nenhum deles, pois eles não sabem nada sobre Linguística.
Mas saber que ele estava ali, exibindo seu corpo a si mesmo diante de um espelho enorme que tomava a parede por completo me causou dúvidas. Considerei que algumas coisas em mim devem estar erradas, ou pelo menos não devem estar certas. (E nesse ponto, insisto que não estar certo é diferente de estar errado!) Talvez a velocidade das coisas não esteja certa. Ou talvez seja a busca incansável por uma completude que cada vez mais me parece inatingível. Talvez esteja errada a crença infantil de que há felicidade completa. Talvez não esteja certo acreditar que se pode ter tudo e que ao nascer, nascemos para ter sucesso em tudo.
Porém, não deve ter sido só aquele cara frente ao espelho, foi mais que isso... Foram coisas que têm causado angústia e mostrado a necessidade de aprender (e buscar ajuda para isso) a se equilibrar nas cordas mais bambas de todas: as cordas de cada dia.
Lembro agora das dúvidas completas, das incertezas, das faltas e também do sucesso. Lembro do pó espalhado pelo chão do quarto e das roupas que precisam ser lavadas. Preciso apenas lembrar cada vez mais de mim.

Friday, March 12, 2010

O lugar onde tudo é verdade


Dizem que os sonhos são gerados a partir dos nossos medos e dos nossos desejos. Há pessoas que têm pesadelos que se repetem e atormentam a noite inteira de quem apenas quer e precisa descansar. Essas pessoas vão a médicos neurologistas, vão a psicólogos, vão a psiquiatras e, por fim, vão à farmácia. A concretude dos sonhos que nós temos é o que realmente atormenta, no caso dos sonhos ruins. Tudo é tão material que parece ser realidade o que nossa mente está projetando enquanto nós dormimos. Mas ao contrário dos sonhos ruins, os bons, aqueles que refletem nossos desejos recolhidos ou extremamente sentidos, parecem não querer permanecer demais. Os sonhos que, por serem quase tão concretos como a realidade, parecem não desejar saciar a nossa fome ou a nossa saudade. Eles vêm, de uma forma como queríamos que viessem, mas partem quando acordamos. Sem o sonho tudo volta a ser verdade e nossos desejos voltam a ser mentiras. É por isso que os sonhos são seguros e que é neles que encontramos lugar para que tudo se materialize em verdade.

Ontem eu sonhei com você. Um sonho lindo, e você chegava como eu queria. E eu via você, eu tocava você, e você me dizia as palavras que eu mais queria ouvir. Waking up was cruel because I couldn't see you by my side! And I had melancholy for breakfast this morning.

Monday, March 08, 2010

Farsa


Há sempre aquele momento em que a luta se torna falsa. Apesar da saudade rasgando o peito, não se desejava saber, não se desejava ouvir palavras que tornariam incertas as (falsas) certezas. Tudo isso porque dói perceber que não há estabilidade, mas sim a cruel instabilidade. Acreditar que se mudou de opinião e que, enfim, a luta à la Barroco chegou ao fim dando a vitória à razão é somente uma farsa.
Parece que como em uma transmissão de pensamentos ele diz sentir saudade quando é também saudade o que lhe faz questionar-se o motivo da ausência do outro. Parece que ele vem para marcar lugar, como se soubesse que o lugar corria perigo. Talvez nem corresse tanto perigo assim. É como se o lugar fosse dele e, mais que isso: no meio da perigosa rotina de viver o lugar pertence a ele. E lá se fora a "estabilidade". Mais que nunca é verdadeira a menina e suas incertezas e opiniões controversas...
Sonhar? Acreditar no futuro? "Um dia estaremos juntos, meu amor"? Isso tudo existe mesmo ou é tudo uma farsa? Embora seja ele o mais verdadeiro de todos é como se a lembrança e a saudade não fossem suficiente para torná-lo sumarento. Mas confiscando a vitória da razão, o desejo retorna e o quer, mais que nunca. Quer suas mãos, seus braços... Quer seu corpo o mais intensamente possível... Seria bem mais simples se fosse só uma questão de atravessar a rua.
Se fosse só atravessar a rua tudo não pareceria uma farsa. Perfeita seria a possibilidade de acreditar na farsa. Mas não! Não existem Senhores e Senhoras Smith. Não existe Mark Sloan. Derek Shepherd é também uma farsa. E não há por aí nem Fabrícios nem Cadus... Até mesmo Lucas e Ana perderam-se pelo meio do caminho provando que eles não eram realidade. Também Aquiles, Gael, Augusto, Leoni e todos os outros personagens são nada mais que papéis que morrerão após a última cena. E, assim, não há matéria consistente para o "tudo pode ser, só basta acreditar".
Tudo parece uma farsa. E se um não aceitou o seu convite, não há porque dizer ao outro que o lugar poderia deixar de existir, mas sim, que o lugar é dele... Parece, por fim, que dentro da maior farsa de todas está a verdade mais incontestável.

Tuesday, March 02, 2010

A voz da verdade


Porque a busca pelo entendimento silenciou a voz que dizia palavras infinitas. O tempo traz a verdade e a verdade traz o entendimento. Ou será ao contrário? Vai saber...
A verdade é que o tempo não pára (Cazuza foi muito feliz em sua colocação). As flores são plantadas, depois brotam e, por fim, morrem. A vida está sempre obedecendo a um movimento cíclico. As pessoas mudam. Mudam a forma de pensar e agir. Mudam os gostos. A vida muda e por mais que machuque as coisas que mais fazem sentido deixam de fazer sentido. E nada como o tempo para trazer a verdade. E a verdade deve, assim acredito, trazer o entendimento.
Os olhos azuis de quem você mais deseja talvez não brilhem mais como antes. As palavras são diferentes. O tom, embora não se escute, é diferente. O que era horas passa a ser dias. O que era dias passa a ser meses. E assim o tempo escorre como água rio a baixo levando as momentâneas verdades e abrindo caminho para as verdades definitivas.
E o sentimento de que tudo teve um fim. O sentimento de que não mais poderá ser o que já se foi. Os próprios atos de cada denotam a mudança. As ânsias de cada um mostram que para o entendimento basta mais um pouco de tempo.
Dói! Fere! Sangra! Mais duro ainda quando não se sabe o que poderia ter acontecido se os planos, os desejos tivessem se realizado. Haverá para sempre a dúvida e incerteza. Se era amor, se era paixão: dúvidas! E se era o grande amor da sua vida? Dúvida que será tirada antes do último suspiro de vida. Se foi o grande amor da sua vida: conformar-se, pois ser o amor da sua vida não garante que vá ser o seu amor para toda vida.
Mas é finito. Sente-se que é finito e acredita-se na necessidade de buscar além do que já se teve. E todas essas palavras que voltaram a ter voz por causa da verdade não passam de um pseudo entendimento. Não há ainda aceitação. Sabe-se, mas não se aceita.
As flores continuaram a ser plantadas e morrerão pouco depois de desabrochar. As águas continuarão a escorrer. As folhas dos calendários virarão lixo. Os olhos azuis brilharão para outros, mas não eternamente. A vida sempre, sempre mudará. A verdade virá; o entendimento, talvez. A saudade virá visitar de vez em quando, em temporadas como o brilho dos olhos azuis que estarão brilhando para outros. As lembranças... Essas fogem à ordem da vida e permanecem, para sempre.

Saturday, January 23, 2010

De pele

Ao som de John Legend, a descoberta desta noite.

Cheiro a banho. Por debaixo da minha toalha mal colocada há um corpo que exala o cheiro do sabonete. Corpo recém-lavado. Corpo que saiu há pouco tempo de um encontro magnífico com suas próprias mãos que espalhavam deslizantemente o sabonete. Ouço música agora e espero alguma coisa. Não sei bem o quê, mas espero. Ouço a música, penetrando os meus ouvidos e imagino outros movimentos. E minha pele está macia. Pele de quem saiu do banho. Minha pele está, antes de tudo, limpa, pura. Estou nu, a esperar e a permitir que a música invada o meu corpo. Minha nudez cheira à espuma do sabonete que escorreu sobre cada pedaço do meu corpo. Minha nudez é limpa. É nudez de quem espera algo, mas não sabe o quê. Minha nudez não será castigada.

Tuesday, January 19, 2010

Algo sobre relacionamento


Relacionamentos constituem desde sempre uma importante marca, não apenas da humanidade, mas de tudo o que nos cerca. Nós nos relacionamos amorosamente com alguém que escolhemos, nos relacionamos com amigos, nos relacionamos com o balconista da padaria... Enfim, nós nos relacionamos e isso talvez seja uma das maiores verdades.
A grande verdade por dentro dos relacionamentos, porém, está na peculiaridade de cada um. Os limites da relação, o jeito de lidar com o outro, e até mesmo a necessidade que se tem de manter um determinado relacionamento são fatores que definem as redes de relacionamento das quais fazemos parte.
Se beijamos na boca, é uma relação física, que mais tem a ver com a intimidade entre dois que com a busca por serviços, como quando pedimos, por telefone, um botijão de gás e interagimos com a pessoa que está do outro lado da linha. Um aperto de mão (pelo menos no mundo ocidental) está muito ligado ao respeito. Quando entre dois homens e, principalmente se vier acompanhado de um abraço com tapinhas nas costas, pode indicar uma relação de amizade. E em meio a gestos e palavras características os relacionamentos constituem-se em qualquer lugar e a todo momento. Interação pura, atemporal e intencional!
Alguns relacionamentos são mais frequentes que outros. Quando moramos com outra(s) pessoa(s) a interação com essa(s) pessoa(s) é algo inevitável. Seja simples ou não, o relacionamento entre pessoas que vivem em um mesma casa é um dos relacionamentos mais frequentes de todos. (Dou um exemplo próprio: parei de escrever por alguns minutos porque minha adorável mãe bateu à porta para fazer mais uma de suas perguntas).
Voltando à frequência dos relacionamentos, também há alguns que não são tão frequentes e que se estabelecem, por exemplo, quando duas ou mais pessoas se encontram, mas que nem por isso deixam de ter seus gestos, olhares e frases típicas. Dois beijinhos para indicar uma maior intimidade: típico entre mulheres, entre um homem e uma mulher, e, nos últimos tempos, típico também entre homens. Um aperto de mão: típico de quando duas pessoas são apresentadas, ou quando há maior cordialidade. E no curioso campo dos relacionamentos até a buzina vira meio de cumprimentar o outro, mostrando as infinitas possibilidades de se relacionar e interagir com os outros. Torçamos para que as redes tecnológicas de relacionamentos não destruam a capacidade nossa de interagir.
Torçamos também para que um relacionamento não interfira no outro e que para tudo haja seu lugar. Torçamos para que além da capacidade de se relacionar, haja em nós também a capacidade de pôr limites àqueles com quem mantemos relacionamentos. Torçamos para que os amigos não briguem entre si por atenção, para que parentes não se confrontem pelo primeiro pedaço do bolo nos nossos aniversários e para que os namorados (as) de nossos(as) amigos(as) não interfiram no relacionamento com nossos amigos.

Thursday, January 14, 2010

Desejos


"Eles eram mais antigos que o silêncio"
Namorados no mirante,
Vinicius de Moraes

Porque te olhar me faz querer sentir teu beijo. Ver-te em frente a mim, me faz querer correr aos teus braços e ser envolvido por eles. Ouvir tua voz me faz querer ouvi-la novamente, só que em sussurros. Teus passos, indo e vindo, me fazem querer caminhar na estrada que leve ao teu desejo. Teus olhos, quando brilham, me trazem o desejo de descobrir quem tu és. Teu silêncio me faz querer descobrir o que tu queres. Pensar em te beijar, em estar em teus braços, em ouvir tua voz sussurada é quase como uma explosão dentro de meu eu inquieto. Desejar-te, por horas sem descanso, arrepia minha alma e faz sumir dentro de meu desejo insistente o medo de ser descoberto. Teus olhos, tua boca, tuas mãos... Teu corpo me faz arder em um desejo tórrido de atirar-me no teu precipício, e ter de ti o despertar de meus desejos.

Thursday, January 07, 2010

Acesas as chamas


Rumo ao fim da primeira semana de um novo ano, as expectativas e os desejos parecem estar acesos como nunca dentro do coração e da mente de todos. Uns se empenham para cumprir as metas traçadas nos últimos minutos do ano que acabou; outros, aguardam a vida trazer as novas esperanças para que as metas possam surgir.
Também é uma verdade indiscutível que para algumas pessoas as mágoas do ano passado ainda estão presentes, causando dor, muita dor. Deve ser normal. É, no mínimo, humano, pois a ilusão de que tudo muda quando o calendário é trocado não passa mesmo de uma doce ilusão, que se torna menos amarga na boca dos que sofrem e optam por fechar os olhos.
As angústias, as decepções, as frustrações... Todas continuam as mesmas. Não é o gesto de rasgar a folha de dezembro que faz tudo mudar. Não são as preces ou metas traçadas para o novo ano que carregam, como mar em ressaca de janeiro, aquilo que mais dói no peito de cada um. E cada um tem sua dor no peito. Pena que a virada da folha de dezembro também não se especializou em cardiologia...
Porém, para não agir com tanto pessimismo (porque a realidade para uns soa como pessimismo), pode-se ver que as chamas estão acesas através do bom e velho jargão: "Ano novo: vida nova". Não dá para entender muito bem esta frase feita. Vida nova só para quem acabou de nascer. A vida pode mudar, mas rejuvenescer: jamais! O tempo não é bumerangue!
Mas as chamas estão acesas e isso é o que importa. Com frase feita ou não, há no início de cada ano a presença do vermelho. Em países como o Brasil, onde é verão nesta época do ano, o calor do sol lembra a vermelhidão e anuncia que as chamas estão acessas e prontas para incendiar a vida de todos que decidem por traçar metas, que guiarão o ano que se inicia.
Então, vamos lá! Optemos por acender as chamas e mantê-las acesas. Optemos pelas ruivas nesse início de ano. Tornem-se ruivas nesse início de ano. Ou agarremos um ruivo nesse início de ano...

Wednesday, December 30, 2009

A poucas horas do fim


Eu mesmo comprarei as flores...

Após não mais que 365 dias, é novamente hora de dizer adeus a um ano. Parece que foi ontem que 2009 chegou, mas 2010 já está aí, batendo à porta com pressa para entrar. Mas antes que a porta de 2009 se feche, ainda há tempo para refletir...
O ano que termina foi um ano apressado. Muitos minutos para poucas horas e os ponteiros dançando em ritmo acelerado sobre os relógios. A vida que precisou se apressar e se dividir entre risos e lágrimas.
Pessoas especiais que chegaram quando menos se esperava. Alguém muito especial que surgiu do mais improvável dos lugares e trouxe momentos maravilhosos e intensos. Momentos que vieram (e talvez continuem vindo) em temporadas. Alguém especial veio e impôs paixão e saudade. Seria bom vencer as milhas de distância e mergulhar na imensidão azul de seus olhos!
Mas não é só de paixão que vive o homem. Precisa-se de algo físico, concreto. Foi por isso, talvez, que outro alguém apareceu, mas por chegar em hora imprópria acabou se perdendo e, provavelmente, querendo não fazer parte deste texto incoerente.
Um alguém especial, dos anos passados, também ressurgiu esse ano. Reapareceu, causou tumulto e realizou um desejo antigo com um beijo intenso em uma tarde de sábado. O beijo deixou um gosto diferente na boca e mais uma vez um desejo ficou guardado...
E os paradoxos continuaram muito incoerentes... Variações de humor, sentimentos confusos em um coração acelerado. Houve medo e insegurança. Houve muita, muita frustração. Sonhos cortados como planta verde. Sonhos que não amadurecerão. E como analgésico para as feridas, oito trabalhosos semestres foram as sementes para um diploma que chegará no início do ano que está batendo à porta e trazendo algumas várias dúzias de dias por onde passarão os primeiros passos rumo a um novo título.
Já que a palavra título apareceu, é mais que necessário dizer que o pensamento neste título fez com que o tempo ficasse ainda mais curto. Entre aulas, diários, relatórios, textos e provas, três teorias geraram a estrutura base para o funcionamento da mente ansiosa por melhores oportunidades.
Toda a correria e o amontoado de afazeres determinaram a semelhança entre um orientando e uma orientadora. Parece que ser Linguista é sinônimo de ter sempre muito o que fazer. E que bom ter o que fazer. Ocupar a mente foi o melhor dos alucinógenos experimentados este ano.
Por falar em ocupação, ela esteve presente até mesmo no dia de "apagar as velinhas", atenuando, felizmente, a imensa insatisfação daquele dia que, este ano, não foi bom.
Estar em dois lugares ao mesmo tempo, fazer duas coisas ao mesmo tempo, acelerar, correr, suar... Ufa! E agora é hora do ano acabar... Pois que acabe e deixe 2010 entrar. Entre feliz, ano que vem, sinta-se em casa. Ocupe seu espaço e traga boas energias e força para viver mais 365 quentes dias.
Mas antes que a folha do calendário seja virada, ainda é necessário comprar as flores... E no melhor estilo Dalloway, eu mesmo comprarei as flores para enfeitar a recepção do novo ano.

Feliz Ano Novo!

Tuesday, December 22, 2009

Já chegou o Natal



As ruas cheias de gente denunciam a chegada do período natalino. Pessoas andam de um lado para o outro e compram... Presentes para os filhos, presentes para os familiares. Há ainda aqueles que compram presentes para os colegas de trabalho em um ato de gentileza; outros, apenas se presenteiam. Algumas pessoas compram e dividem a conta em prestações que só estarão quitadas quando for tempo de mais uma vez comprar presentes e fingir ser Papai Noel.
Os supermercados também estão lotados. As filas, quilométricas, assustam a quem precisa apenas de um frasco de shampoo. É difícil viver às vésperas do Natal. Todos querem ser Papai Noel, todos querem celebrar a festa natalina como se a noite de Natal fosse o dia mais importante e mais significativo do ano. Parece até que os outros trezentos e tantos dias não valeram de nada. É esperando a chegada do Bom velhinho pela chaminé que as pessoas pensam em consertar os erros, pedir perdão, juntar a família, abraçar aqueles juntos dos quais passaram o ano inteiro, mas só na noite de Natal merecem sentir-se abraçados.
Que não pareça descrença, nem tão pouco pessimismo, mas a noite de Natal é apenas mais uma noite. Todas as datas são apenas datas. A vida não deixa de existir nos dias em que as filas de supermercados estão mais vazias ou nos dias em que não há ninguém fazendo compras. Dar presentes, abraçar, querer estar perto não deveria ser algo exclusivo do Natal...
E eu queria me sentir abraçado agora, duas noites antes da noite de Natal. Talvez com um desejo mais forte do que o que sentirei depois de amanhã, eu queria sentir o calor do corpo de alguém que me abraçasse com tudo de si.
Mas sem abraços nem muitas expectativas, o que resta é esperar, ao som de sinos e hinos natalinos, a noite feliz.

Feliz Natal a todos!

Friday, December 11, 2009

Aula da Saudade

Ontem, dia 10, tive a honra de ministrar a aula da saudade para a turma do 9º ano. Compartilho a emoção com o texto que escrevi especialmente para este momento.

JustificarDedicado à turma do 9º ano

Embora alguma pessoas me chamem de saudosista, eu nem gosto muito de pensar em saudade. Até hoje eu ainda não encontrei a saudade boa de que alguns falam por aí.
Mas é necessário sentir saudade sim. Ela é como uma marca que fica, avisando que alguma coisa que já acabou foi boa. E sim, as coisas boas sempre acabam. É a ordem natural da vida: acabar - começar - acabar de novo...
Pois bem, caros alunos (que a partir de agora começam a deixar de ser meus alunos), vocês estão numa aula chamada saudade porque uma fase da vida de vocês está se encerrando. Espero que seja saudade mesmo o que vocês vão sentir de tudo isso. A começar pela sala de aula que os abrigou por vários meses. E pela escola, que em sua estrutura, tem um pouco de cada um de vocês que passa por aqui e deixa sua marca, ou vocês acham que nós nos esquecemos de vocês?
Como, Ângelo, esquecer de pedir pra você tirar o boné no início da aula? E como não lembrar de seus corpos se movendo para conversar com o colega da cadeira de trás? Como hein, Tybald? E esses olhos expressivos cujo brilho sempre indica muitas novidades quentes para contar, Marta? Dá pra esquecer? Fale, Gracy, dê sua opinião, mas antes, é claro, mande Stephanie e Larissa pararem de conversar. Rafael, abra o livro, só que agora o livro da história que vocês estão construindo. E faça, Gabriel, sempre aquilo que lhe traz felicidade, pois, Lucas, tudo que fazemos hoje nos marca para o resto de nossas vidas.
É... Não dá pra não lembrar da menina com jeito levado, mas bem comportada e muito inteligente... Você sabe que é você, não é, Bruna? Se não sabe, Karol, me faça mais esse favor e avise a ela. E você, Marcelo, preste atenção, ou você acha que não estou lhe vendo? Venha aqui pra frente e preste atenção... Não quero nem falar sobre Arthur, menino com nome de rei. Será que tem por aqui uma candidata à rainha?
É, gente, não dá mesmo pra esquecer; ainda mais agora que, depois de muito trocar no início doi ano, eu agora sei quem é Kelly e quem é Caetano...
Meninos e meninas, não nos esqueceremos de vocês, principalmente das broncas. E esperamos que vocês não esqueçam o que tentamos ensiná-los. E não esqueçam, principalmente, dos momentos em que deixávamos o conteúdo de lado e tentávamos ensinar um pouco do que é a vida e de como é viver nos dias de efeito estufa...
Eu nem estava sentindo, mas agora a saudade chegou. Parece que vai tocar a sirene e vocês vão sair da sala de aula, mas dessa vez, que esqueçam a sede e mudem de caminho. Saiam rumo ao futuro e ao sucesso na vida.
Eu agradeço do fundo do meu coração por ter tido a honra de participar deste momento de vocês. Peço perdão por quando não soube entendê-los, e, exijo que vocês sigam em frente e estudem. Estudem muito mesmo! E que sejam homens e mulheres de bom coração.
E como último pedido (afe, que professor exigente, pede coisa demais!!!), peço que vocês saibam ver os dias bonitos e não os deixar ir embora. E sejam felizes, sempre!

Wednesday, December 09, 2009

Por entre a concretude dos sonhos

Sonhar não era para ele apenas a diversão favorita, era também sua profissão. Sonhador de carteira assinada, ele gastava seus dias a imaginar como seriam as horas seguintes e se nos minutos que estavam a esperar por ele estava guardada a felicidade. E também pensava sobre o amor, sobre as realizações que o futuro poderia lhe trazer. Seria ele bem sucedido profissionalmente? Mas em quantos anos tudo aconteceria? Quanto tempo seria necessário para que sua conta bancária mudasse do extrato quase negativo para o tranquilo extrato de vários dígitos?
Certamente, quando pensava no futuro profissional ele pensava com mais esperanças... O amor, entretanto, era um "sei lá o quê" que o assustava muito. Seus sentimentos no presente pareciam estar firmemente freados na frieza firmada sobre seus dias quase infinitos. Seus sentimentos, portanto, não lhe davam muito motivo para sonhar com um futuro com altas doses de amor. Ele até queria acreditar, mas era difícil crer que poderia se deparar com alguém que faria seu coração desparar.
Sem amor e com expectativas de um futuro profissional, ele sonhava com o passar dos dias, como a chegada dos meses e com o balé das estações. Sonhava com o verão e, quando lá, também queria o inverno. Gastava algumas horas sonhando, pois queria se permitir sonhar mais. De concreto ele só queria o chão sobre o qual precisava manter-se erguido.

Friday, December 04, 2009

As ondas


O tempo está passando e as coisas acontecendo muito rapidamente. Uma coisa atrás da outra sem muito tempo pra pensar. Quase não há mais o tempo para o cafezinho. Até mesmo o tempo dos abraços e as conversas bestas com amigos têm desaparecido. É a vida tentando nadar num mar muito agitado onde, muitas vezes, fortes e cruéis tempestades ferem os corações afogados em ondas de esperança e desejo. Dedica-se muito a algo, devota-se energia a algo, retira-se tempo do tempo que já não existe. Faz-se muito e uma simples onda arrasta tudo para o fundo do mar. Ficam, às vezes, sorrisos de dever cumprido e a emoção da realização plena. Entretanto, às vezes, a única coisa que resta é a dor para encarar as frustrações dos planos que não deram certo.
A vida é assim... Os dias passam e as pessoas precisam viver suas vidas. Algumas, gritam ou falam sem parar; outras optam pelas silenciosas palavras depositadas em brancas folhas de papel.

Sunday, November 01, 2009

Tempo e silêncio



O tempo, ou melhor, a falta dele, tem feito com que alguns de meus pensamentos se realizem em silêncio. Muita coisa acontece de uma vez só e não há direito a pausas para que os pensamentos se organizem devagar. Tudo exige eficácia e rapidez. Os dias estão rápidos. A vida está passando acelerada. Para onde tudo está indo? Para que lado as ondas estão arrastando os dias em maré altíssima?
Só sei que novembro chegou e que as lojas estão tomadas por enfeites de Natal...

Ps: Esta postagem é dedicada a Roberto, leitor assíduo e querido!

Tuesday, September 15, 2009

Quando nem tudo cabe no tempo

"I am only resolved to act in that manner, which will,
in my opinion, constitute my happiness"
(Jane Austen)


Não tenho usado muito este espaço para desabafos (pelo menos não de forma direta), mas vou usá-lo hoje. Por muitas razões que nem vêm ao caso. E vou dedicar o post a minha amiga Andressa, mais uma vez pela cumplicidade e por saber que ela compartilha de alguns dos meus sentimentos (e ocupações).


"Você tem até o dia 18 para enviar o artigo!", "Não esqueça o prazo das inscrições!", "Prepare o projeto!", "Faça!"... Frases como essas têm posto em desespero os meus dias meio angustiantes. Há muito desejo de fazer tudo isso e produzir. Produzir materiais relevantes para a minha carreira. Investir no que não vai embora.
Mas o acúmulo das atividades, dos compromissos e os miseráveis imprevistos parecem tomar uma proporção incapaz de caber em meus minutos. Sinto o cruel desespero e a dúvida de estar ou não seguindo os caminhos certos. Estar ou não agindo da maneira que, em minha opinião, constituirá minha felicidade. Minha mente e meu corpo sentem o peso do amontoado de coisas... E ainda aqueles alunos problemáticos! Talvez eu devesse me dedicar mais à pesquisa...
O corpo é o que mais sente, pois já em desespero, ele pede e pede muito. Clama até! Mais que nunca tenho dúvidas. Dúvidas das quais nada em mim é capaz de fugir. Tenho dúvidas e afirmo isso no melhor estilo Meryl Streep no filme Dúvida (Doubt, 2008).
Queria tomar um sorvete na praia e observar, pelo menos por alguns instantes os dias passarem, os carros passarem, as ondas fazerem seu balé... Queria sentir o vento do fim da tarde batendo no meu rosto como quando, há anos, eu pegava o ônibus de número 510 e ia tomar sorvete na Friberg. Meu sorvete de menta com chocolate favorito e que era sempre seguido por uma longa e agradável caminhada. Sim! Nunca pensei que pudesse dizer isso um dia, mas eu, às vezes, sinto falta de pegar um ônibus e sentir o vento no rosto sem me preocupar com o trânsito.
E como se não bastasse o tempo que insiste em não abrigar tudo o que eu tenho para fazer, ainda me aparece aquela fase da insegurança e das dúvidas. A fase mais cruel do tempo da saudosa espera.
Saudosa espera... Isso me faz pensar em uma coisa que talvez até der certo: esperar! É só o que homens como eu podem fazer. No meu caso, porém, esperar com os braços bem descruzados e com uma montanha de livros como companhia.

Friday, September 04, 2009

Biblioteca Itinerante


Quando era bem pequeno, eu tinha mania de pegar livros emprestados na pequena biblioteca itinerante que parava vez por outra na minha cidade. Para mim, toda vez que a biblioteca chegava era como se toda a felicidade do mundo fosse se realizar naquela estrutura móvel instalada na pracinha da cidade.
Minha cidade era uma cidade calma e pequena. Tão pequena que a pracinha principal ficava quase de frente para o mar. E era lá, quase de frente para o mar, que a biblioteca, como uma esperança para os meus pacatos dias, se instalava. Que festa! Acordava cheio de esperança depois de uma noite de ansiedade. Quais livros encontraria? Será que os últimos lançamentos das minhas coleções favoritas estariam disponíveis?
Eu corria para aquele pequeno espaço montado no meio da praça e lá passava o dia inteiro. Não lia, devorava com meu olhar faminto todas aquelas palavrinhas deitadas nas mais perfeitas páginas. Transitava entre os livros na esperança de que a companhia deles preenchesse meus dias vazios e pouco coloridos. Talvez por isso, eu buscasse sempre os livros mais coloridos. Ora livros amarelos feito o sol; ora, livros azuis como o infinito.
Lembro de uma vez em que encontrei um livro especial. Que obra! Quantas palavras perfeitas! Levei o livro comigo apertando-o contra o peito, como se quisesse colocá-lo dentro do meu coração. Cada linha lida me proporcionava mais felicidade. Cada minuto de leitura me fazia sentir o prazer jamais sentido. Eu estava fascinado!
Mas o livro era muito grande. Tinha muitas páginas e eu, leitor imaturo, era lento e acabei não conseguindo lê-lo de uma vez só. Tive que devolver o livro, pois a biblioteca viajaria para outra cidade. Chorei quase todas as minhas lágrimas de criança quando entreguei o livro nas mãos da senhora que tomava conta da biblioteca. A partida daquele livro causava um imenso vazio.
Meses depois, a biblioteca voltou. Corri para a pracinha, quase de frente para o mar, e encontrei aquele livro responsável por alguns dos meus melhores dias. Peguei-o novamente. Consegui avançar na leitura, li por vários dias sem parar. Estava mais uma vez preenchido de esperança e daquele prazer que até hoje não consigo definir.
Avancei na leitura, mas não consegui acabar de ler o livro. Era de fato muito grande. A biblioteca itinerante mais uma vez precisou partir. Foi para outra cidade. Longe... Para bem longe foi o meu livro querido. Outras tantas lágrimas de criança sozinha jorraram dos meus olhos. Um vazio tomava conta do espaço que só aquele livro conseguia ocupar. Um vazio no coração. Já eu, era de novo a criança carente à espera incerta de quando o livro de páginas coloridas voltaria aos meus braços.

Wednesday, September 02, 2009

Sobre o que interessa

Acredito que todos nós, pelo menos uma vez, já ouvimos a famosa frase: "Nós não fazemos só aquilo de que gostamos". Não dá para discutir a verdade dessa antiga sentença que nossos pais geralmente nos ensinam e exigem que coloquemos em prática na nossa vida. Mas, por outro lado, é muito verdadeiro, diria que sumarento até, o desejo de filtrar as coisas para vivermos e sentirmos só aquilo que nos interessa.
O cantor Lenine tem uma música chamada É o que me interessa. Na letra, o músico fala sobre utilizar esse filtro e ficar com o que realmente interessa. Ver as pessoas que nos interessam. Bloquear o resto e transformar o mundo exterior em miragem, como a própria música diz. Quem de nós não desejaria possuir um filtro como esse? Quem de nós não desejaria dizer não a um monte de coisas e viver só o que é bom e agradável? Eu desejaria.
Há vezes em que, assim como na música, é preciso que uma tarde faça silêncio e que nós possamos repousar tranquilos em uma rede como se no mundo nada estivesse acontecendo. Há vezes em que é preciso dizer não e sentir que é nosso, de verdade, o poder de dizer não. E enxergar do conforto da rede, ou do sofá da sala, ou da cama "o vento soprar a nosso favor", nos guiando por uma viagem íntima, na qual pressentimentos serão o prenúncio da saudade de algo que ainda está por vir. Nessa viagem, além dos pressentimentos, também deve haver espaço para pensar naquela pessoa especial. Pensar naquela pessoa que tem o poder de te fazer sossegar. Naquela pessoa que faz teu relógio íntimo atrasar. E como é bom perceber que você, aquela pessoa que acorda cedo pensando nas muitas obrigações, é capaz de se entregar a alguém tão intensamente ao ponto de acordar às duas da tarde em plena terça-feira.
Parar! Às vezes, é preciso parar e pensar no que realmente interessa, mesmo que para isso, antes precisemos fazer uma dezena de coisas que não suportamos.