Friday, December 11, 2009

Aula da Saudade

Ontem, dia 10, tive a honra de ministrar a aula da saudade para a turma do 9º ano. Compartilho a emoção com o texto que escrevi especialmente para este momento.

JustificarDedicado à turma do 9º ano

Embora alguma pessoas me chamem de saudosista, eu nem gosto muito de pensar em saudade. Até hoje eu ainda não encontrei a saudade boa de que alguns falam por aí.
Mas é necessário sentir saudade sim. Ela é como uma marca que fica, avisando que alguma coisa que já acabou foi boa. E sim, as coisas boas sempre acabam. É a ordem natural da vida: acabar - começar - acabar de novo...
Pois bem, caros alunos (que a partir de agora começam a deixar de ser meus alunos), vocês estão numa aula chamada saudade porque uma fase da vida de vocês está se encerrando. Espero que seja saudade mesmo o que vocês vão sentir de tudo isso. A começar pela sala de aula que os abrigou por vários meses. E pela escola, que em sua estrutura, tem um pouco de cada um de vocês que passa por aqui e deixa sua marca, ou vocês acham que nós nos esquecemos de vocês?
Como, Ângelo, esquecer de pedir pra você tirar o boné no início da aula? E como não lembrar de seus corpos se movendo para conversar com o colega da cadeira de trás? Como hein, Tybald? E esses olhos expressivos cujo brilho sempre indica muitas novidades quentes para contar, Marta? Dá pra esquecer? Fale, Gracy, dê sua opinião, mas antes, é claro, mande Stephanie e Larissa pararem de conversar. Rafael, abra o livro, só que agora o livro da história que vocês estão construindo. E faça, Gabriel, sempre aquilo que lhe traz felicidade, pois, Lucas, tudo que fazemos hoje nos marca para o resto de nossas vidas.
É... Não dá pra não lembrar da menina com jeito levado, mas bem comportada e muito inteligente... Você sabe que é você, não é, Bruna? Se não sabe, Karol, me faça mais esse favor e avise a ela. E você, Marcelo, preste atenção, ou você acha que não estou lhe vendo? Venha aqui pra frente e preste atenção... Não quero nem falar sobre Arthur, menino com nome de rei. Será que tem por aqui uma candidata à rainha?
É, gente, não dá mesmo pra esquecer; ainda mais agora que, depois de muito trocar no início doi ano, eu agora sei quem é Kelly e quem é Caetano...
Meninos e meninas, não nos esqueceremos de vocês, principalmente das broncas. E esperamos que vocês não esqueçam o que tentamos ensiná-los. E não esqueçam, principalmente, dos momentos em que deixávamos o conteúdo de lado e tentávamos ensinar um pouco do que é a vida e de como é viver nos dias de efeito estufa...
Eu nem estava sentindo, mas agora a saudade chegou. Parece que vai tocar a sirene e vocês vão sair da sala de aula, mas dessa vez, que esqueçam a sede e mudem de caminho. Saiam rumo ao futuro e ao sucesso na vida.
Eu agradeço do fundo do meu coração por ter tido a honra de participar deste momento de vocês. Peço perdão por quando não soube entendê-los, e, exijo que vocês sigam em frente e estudem. Estudem muito mesmo! E que sejam homens e mulheres de bom coração.
E como último pedido (afe, que professor exigente, pede coisa demais!!!), peço que vocês saibam ver os dias bonitos e não os deixar ir embora. E sejam felizes, sempre!

Wednesday, December 09, 2009

Por entre a concretude dos sonhos

Sonhar não era para ele apenas a diversão favorita, era também sua profissão. Sonhador de carteira assinada, ele gastava seus dias a imaginar como seriam as horas seguintes e se nos minutos que estavam a esperar por ele estava guardada a felicidade. E também pensava sobre o amor, sobre as realizações que o futuro poderia lhe trazer. Seria ele bem sucedido profissionalmente? Mas em quantos anos tudo aconteceria? Quanto tempo seria necessário para que sua conta bancária mudasse do extrato quase negativo para o tranquilo extrato de vários dígitos?
Certamente, quando pensava no futuro profissional ele pensava com mais esperanças... O amor, entretanto, era um "sei lá o quê" que o assustava muito. Seus sentimentos no presente pareciam estar firmemente freados na frieza firmada sobre seus dias quase infinitos. Seus sentimentos, portanto, não lhe davam muito motivo para sonhar com um futuro com altas doses de amor. Ele até queria acreditar, mas era difícil crer que poderia se deparar com alguém que faria seu coração desparar.
Sem amor e com expectativas de um futuro profissional, ele sonhava com o passar dos dias, como a chegada dos meses e com o balé das estações. Sonhava com o verão e, quando lá, também queria o inverno. Gastava algumas horas sonhando, pois queria se permitir sonhar mais. De concreto ele só queria o chão sobre o qual precisava manter-se erguido.

Friday, December 04, 2009

As ondas


O tempo está passando e as coisas acontecendo muito rapidamente. Uma coisa atrás da outra sem muito tempo pra pensar. Quase não há mais o tempo para o cafezinho. Até mesmo o tempo dos abraços e as conversas bestas com amigos têm desaparecido. É a vida tentando nadar num mar muito agitado onde, muitas vezes, fortes e cruéis tempestades ferem os corações afogados em ondas de esperança e desejo. Dedica-se muito a algo, devota-se energia a algo, retira-se tempo do tempo que já não existe. Faz-se muito e uma simples onda arrasta tudo para o fundo do mar. Ficam, às vezes, sorrisos de dever cumprido e a emoção da realização plena. Entretanto, às vezes, a única coisa que resta é a dor para encarar as frustrações dos planos que não deram certo.
A vida é assim... Os dias passam e as pessoas precisam viver suas vidas. Algumas, gritam ou falam sem parar; outras optam pelas silenciosas palavras depositadas em brancas folhas de papel.

Sunday, November 01, 2009

Tempo e silêncio



O tempo, ou melhor, a falta dele, tem feito com que alguns de meus pensamentos se realizem em silêncio. Muita coisa acontece de uma vez só e não há direito a pausas para que os pensamentos se organizem devagar. Tudo exige eficácia e rapidez. Os dias estão rápidos. A vida está passando acelerada. Para onde tudo está indo? Para que lado as ondas estão arrastando os dias em maré altíssima?
Só sei que novembro chegou e que as lojas estão tomadas por enfeites de Natal...

Ps: Esta postagem é dedicada a Roberto, leitor assíduo e querido!

Tuesday, September 15, 2009

Quando nem tudo cabe no tempo

"I am only resolved to act in that manner, which will,
in my opinion, constitute my happiness"
(Jane Austen)


Não tenho usado muito este espaço para desabafos (pelo menos não de forma direta), mas vou usá-lo hoje. Por muitas razões que nem vêm ao caso. E vou dedicar o post a minha amiga Andressa, mais uma vez pela cumplicidade e por saber que ela compartilha de alguns dos meus sentimentos (e ocupações).


"Você tem até o dia 18 para enviar o artigo!", "Não esqueça o prazo das inscrições!", "Prepare o projeto!", "Faça!"... Frases como essas têm posto em desespero os meus dias meio angustiantes. Há muito desejo de fazer tudo isso e produzir. Produzir materiais relevantes para a minha carreira. Investir no que não vai embora.
Mas o acúmulo das atividades, dos compromissos e os miseráveis imprevistos parecem tomar uma proporção incapaz de caber em meus minutos. Sinto o cruel desespero e a dúvida de estar ou não seguindo os caminhos certos. Estar ou não agindo da maneira que, em minha opinião, constituirá minha felicidade. Minha mente e meu corpo sentem o peso do amontoado de coisas... E ainda aqueles alunos problemáticos! Talvez eu devesse me dedicar mais à pesquisa...
O corpo é o que mais sente, pois já em desespero, ele pede e pede muito. Clama até! Mais que nunca tenho dúvidas. Dúvidas das quais nada em mim é capaz de fugir. Tenho dúvidas e afirmo isso no melhor estilo Meryl Streep no filme Dúvida (Doubt, 2008).
Queria tomar um sorvete na praia e observar, pelo menos por alguns instantes os dias passarem, os carros passarem, as ondas fazerem seu balé... Queria sentir o vento do fim da tarde batendo no meu rosto como quando, há anos, eu pegava o ônibus de número 510 e ia tomar sorvete na Friberg. Meu sorvete de menta com chocolate favorito e que era sempre seguido por uma longa e agradável caminhada. Sim! Nunca pensei que pudesse dizer isso um dia, mas eu, às vezes, sinto falta de pegar um ônibus e sentir o vento no rosto sem me preocupar com o trânsito.
E como se não bastasse o tempo que insiste em não abrigar tudo o que eu tenho para fazer, ainda me aparece aquela fase da insegurança e das dúvidas. A fase mais cruel do tempo da saudosa espera.
Saudosa espera... Isso me faz pensar em uma coisa que talvez até der certo: esperar! É só o que homens como eu podem fazer. No meu caso, porém, esperar com os braços bem descruzados e com uma montanha de livros como companhia.

Friday, September 04, 2009

Biblioteca Itinerante


Quando era bem pequeno, eu tinha mania de pegar livros emprestados na pequena biblioteca itinerante que parava vez por outra na minha cidade. Para mim, toda vez que a biblioteca chegava era como se toda a felicidade do mundo fosse se realizar naquela estrutura móvel instalada na pracinha da cidade.
Minha cidade era uma cidade calma e pequena. Tão pequena que a pracinha principal ficava quase de frente para o mar. E era lá, quase de frente para o mar, que a biblioteca, como uma esperança para os meus pacatos dias, se instalava. Que festa! Acordava cheio de esperança depois de uma noite de ansiedade. Quais livros encontraria? Será que os últimos lançamentos das minhas coleções favoritas estariam disponíveis?
Eu corria para aquele pequeno espaço montado no meio da praça e lá passava o dia inteiro. Não lia, devorava com meu olhar faminto todas aquelas palavrinhas deitadas nas mais perfeitas páginas. Transitava entre os livros na esperança de que a companhia deles preenchesse meus dias vazios e pouco coloridos. Talvez por isso, eu buscasse sempre os livros mais coloridos. Ora livros amarelos feito o sol; ora, livros azuis como o infinito.
Lembro de uma vez em que encontrei um livro especial. Que obra! Quantas palavras perfeitas! Levei o livro comigo apertando-o contra o peito, como se quisesse colocá-lo dentro do meu coração. Cada linha lida me proporcionava mais felicidade. Cada minuto de leitura me fazia sentir o prazer jamais sentido. Eu estava fascinado!
Mas o livro era muito grande. Tinha muitas páginas e eu, leitor imaturo, era lento e acabei não conseguindo lê-lo de uma vez só. Tive que devolver o livro, pois a biblioteca viajaria para outra cidade. Chorei quase todas as minhas lágrimas de criança quando entreguei o livro nas mãos da senhora que tomava conta da biblioteca. A partida daquele livro causava um imenso vazio.
Meses depois, a biblioteca voltou. Corri para a pracinha, quase de frente para o mar, e encontrei aquele livro responsável por alguns dos meus melhores dias. Peguei-o novamente. Consegui avançar na leitura, li por vários dias sem parar. Estava mais uma vez preenchido de esperança e daquele prazer que até hoje não consigo definir.
Avancei na leitura, mas não consegui acabar de ler o livro. Era de fato muito grande. A biblioteca itinerante mais uma vez precisou partir. Foi para outra cidade. Longe... Para bem longe foi o meu livro querido. Outras tantas lágrimas de criança sozinha jorraram dos meus olhos. Um vazio tomava conta do espaço que só aquele livro conseguia ocupar. Um vazio no coração. Já eu, era de novo a criança carente à espera incerta de quando o livro de páginas coloridas voltaria aos meus braços.

Wednesday, September 02, 2009

Sobre o que interessa

Acredito que todos nós, pelo menos uma vez, já ouvimos a famosa frase: "Nós não fazemos só aquilo de que gostamos". Não dá para discutir a verdade dessa antiga sentença que nossos pais geralmente nos ensinam e exigem que coloquemos em prática na nossa vida. Mas, por outro lado, é muito verdadeiro, diria que sumarento até, o desejo de filtrar as coisas para vivermos e sentirmos só aquilo que nos interessa.
O cantor Lenine tem uma música chamada É o que me interessa. Na letra, o músico fala sobre utilizar esse filtro e ficar com o que realmente interessa. Ver as pessoas que nos interessam. Bloquear o resto e transformar o mundo exterior em miragem, como a própria música diz. Quem de nós não desejaria possuir um filtro como esse? Quem de nós não desejaria dizer não a um monte de coisas e viver só o que é bom e agradável? Eu desejaria.
Há vezes em que, assim como na música, é preciso que uma tarde faça silêncio e que nós possamos repousar tranquilos em uma rede como se no mundo nada estivesse acontecendo. Há vezes em que é preciso dizer não e sentir que é nosso, de verdade, o poder de dizer não. E enxergar do conforto da rede, ou do sofá da sala, ou da cama "o vento soprar a nosso favor", nos guiando por uma viagem íntima, na qual pressentimentos serão o prenúncio da saudade de algo que ainda está por vir. Nessa viagem, além dos pressentimentos, também deve haver espaço para pensar naquela pessoa especial. Pensar naquela pessoa que tem o poder de te fazer sossegar. Naquela pessoa que faz teu relógio íntimo atrasar. E como é bom perceber que você, aquela pessoa que acorda cedo pensando nas muitas obrigações, é capaz de se entregar a alguém tão intensamente ao ponto de acordar às duas da tarde em plena terça-feira.
Parar! Às vezes, é preciso parar e pensar no que realmente interessa, mesmo que para isso, antes precisemos fazer uma dezena de coisas que não suportamos.