Saturday, November 29, 2008

Um brinde de frase soltas a um corpo de esperança

Um encontro entre alma e corpo


De repente, não mais que de repente, um sopro de vida, uma esperança cruza o caminho de alguém que está no estacionamento. Tudo isso numa noite escura, meio fria e num estacionamento quase deserto.
E a esperança entra no carro e juntos os dois seguem sob uma atmosfera suave. Enquanto um dá o assunto da conversa; o outro se esforça para não errar a marcha do carro. Enquanto um fala mansamente e com propriedade sobre os assuntos que insere à conversa; o outro pensa em como seria perfeito se os dois corpos se unissem e se fizessem apenas um.
Uma esperança de paixão é o que entra pelos vidros abertos do carro, inundando tudo com a adrenalina que parte do corpo de um que se pergunta se também é adrenalina o que o outro exala. Os dois se olham por diversas vezes, um escuta os comentários do outro sobre arquitetura e sobre "politicagem". As vozes de ambos teimam em denunciar aquele "climinha" de um jogo de paixão no qual não há vencedor, mas apenas duas pessoas inteligentes o suficiente para lançar perguntas e comentários cada vez mais perspicazes. Como numa partida de pingue-pongue, enquanto um comenta o gosto do outro pelas saladas; o outro, por sua vez, comenta as mãos frias de um que não sabe onde pôr as mãos geladas e põe a culpa no vento. Coitado do vento...
Nenhum dos dois tem idéia de onde isso pode chegar, de qual será o desfecho dessa história apaixonante, excitante, perigosa. O que importa, na verdade, é que para um o sopro de esperança em uma paixão vem e o eleva... Coloca-o no ponto mais alto e lhe dá o direito de repetir mais uma vez a fala de Lisa do filme Paixão à Flor da Pele (Wicker Park): "... I feel beautiful tonight...". E de fato, indeed, ele se sentiu belo, extremamente belo, pois o cheiro de paixão no ar o deixava à flor da pele.

Wednesday, November 26, 2008

Um brinde de frases soltas a um corpo vazio

Uma alma sem corpo... Um corpo sem alma...


Pratos de comida que denunciam a gula. Barras e barras de chocolate e litros de coca-cola. Indícios diversos de uma ausência, de um vazio que busca incansavelmente ser preenchido.
Um telefone que não aguenta mais esperar para tocar, uma caixa de mensagens quase vazia (vazia, se não fosse as mensagens da operadora!!!). Músicas tocando... Against all odds, The blower's daughter e por aí vai... Um sono que não é apenas um descanso, mas também a fuga de uma realidade que não parece colorida. Um capítulo da história que teima em ser escrito em preto e branco. Mas se ao menos houvesse Charles Chaplin...
Um coração que espera e precisa, uma mente que sonha e um corpo que arde de tanto sentir frio. Se fosse num circo, o palhaço estaria sem picadeiro e o trapezista não teria mais seu trapézio. E não haveria equilibrista!
É como um vento frio num dia de brisa ou como muito calor num dia de verão. É a neve que insiste em cair num inverno frio. Mas se ao menos o setting fosse Nova York...
Gritos abafados, lágrimas presas, abraços soltos, beijos desencontrados. O in sem o out. Como sentimentos causam tanto estrago? Como pode não haver cor num filme tão criativo?
Um jardim sem flores ou simplesmente um sujeito separado por vírgula de seu predicado.
Ou talvez, letras desejando uma bela frase que lhes traga a segurança que somente algumas palavras podem dar.

Wednesday, November 19, 2008

Aceita um chocolate?

Os últimos dias têm sido muito quentes. A sensação é de que o mundo vai pegar fogo a qualquer momento. Isso me incomoda demais. Eu detesto calor! Para piorar, a temperatura elevada me tira do sério, me deixa nervoso, profundamente chateado e impaciente.
Hoje, além do fogo que parecia me rodear, o dia ainda foi recheado de melancolia, de coisas que me deixam insatisfeito, de pequenos aborrecimentos que juntos tomam proporções catastróficas, e de ausência... Vai saber que ausência é essa. Ontem fui ao shopping e fiz pequenas compras para acalmar um pouco a minha ansiedade (e, por outro lado, aumentar o saldo devedor do cartão de crédito!!). Aproveitei também o ar-condicionado do shopping como se aquilo me proporcionasse a fantasiosa impressão de que na verdade o mundo não está pegando fogo. E vi vitrines e mais vitrines. Comprei cds virgens, mas ainda fiquei aborrecido por não encontrar algum enfeite novo para pôr na minha árvore de Natal. E que Natal será este! Confesso que me aterroriza um pouco pensar que este ano nossa família já não está mais centrada, ou melhor dizendo, que nossa família já não tem mais o seu centro. E ontem, inclusive, seria seu aniversário... Que saudades da presença da minha avó-mãe!
E hoje... Bom, hoje eu fui ao Hiper Bompreço pagar uma conta. Aproveitei que tinha que ir para Intermares dar aula e parei lá. Caminhei um pouco por seus corredores (por um rápido instante tive vontade de fazer uma enorme feira!). Olhei a seção das cuecas, dos dvds e acabei comprando um creme dental e um chocolate suflair. O chocolate foi a melhor coisa do dia... Por um instante minha boca entrando em contato com o chocolate me deu um incontrolável prazer, como se eu estivesse tendo um orgasmo através do paladar. Mas como na maioria dos orgasmos masculinos, o feeling de prazer passou rápido e tudo voltou ao normal: o calor, a melancolia, os suspiros de meia satisfação. Senti-me como se o bonde da vida tivesse dado uma arrancada súbita e meu saco de tricô tivesse sido lançado ao chão. Da mesma forma que Ana (personagem do conto Amor de Clarice Lispector) senti que tudo era um fio partido.
E ainda estou sentindo... Sentindo a ausência de uma voz docemente sensual ao meu ouvido, de mãos firmes o suficiente para segurar os mantimentos contidos no meu saco de tricô, e da completude sentimental e física que só outro corpo pode oferecer. A ausência da paixão me dilacera!
Só agora me dou conta de que deveria ter comprado outro chocolate suflair.

Thursday, November 13, 2008

Cem vezes com sentimentos

Dedicado a Ana Adelaide
Antes de mais nada, quero justificar a dedicatória. Hoje eu tive o prazer de ler algumas crônicas desta brilhante professora a quem estou dedicando esta postagem. Ao ler as crônicas, tive sempre nítida a imagem de seu sorriso, como se ela estivesse me contando, pessoalmente, o que estava escrito em seu texto. Pela imagem e pela inspiração, resolvi fazer a dedicatória.
Esta é a minha centésima postagem neste blog. Entre os cem textos escritos aqui eu posso achar muito de mim mesmo. Posso matar as saudades de coisas que já ficaram no passado, posso revivê-las sentindo a mesma emoção de quando aconteceram. Posso lembrar também de frases, citações que para este espaço transcrevi. Posso olhar das primeiras postagens às últimas e redescobrir sonhos de um adolescente que se confundem com os sonhos de um homem jovem, que em muitas coisas não acredita mais. Há muitos sentimentos depositados nas letras que já escrevi... Quantas tristezas! Quantas paixões! Posso arriscar que minhas cem postagens são provas de pelo menos três paixões.
Ultrapassando os limites emocionais, eu posso, sem falsa modéstia, perceber o quanto amadureci como homem e também como um escritor. Eu sempre escrevi os meus sentimentos... Eu escrevo com o que sinto e mais nada. Mas, ainda assim, é preciso dizer que a forma como eu organizo minhas idéias hoje, as palavras que uso são diferentes das palavras que eu usava nas primeiras postagens. Acredito que devo isto às leituras que fiz ao longo dos últimos anos. Devo muito também - no que diz respeito ao modo como exponho meus sentimentos - às pessoas delicadas e sensíveis com as quais tive o imenso prazer de conviver. Ah, se o mundo inteiro tivesse a abstração de Eveline! Ah, se o mundo inteiro tivesse a delicada e deslumbrante sensibilidade de Ana Adelaide! E não vou esquecer... Não posso desconsiderar o toque da entorpecente racionalidade de Áurea.
Posso voar em minhas palavras. Sinto que minhas letras são como pássaros que voam alto, bem alto... E não me importo se serei lido ou não. A única coisa com a qual me importo é alcançar o horizonte de meus sentimentos mais íntimos.
Sentir me basta!

Sunday, November 02, 2008

Shakespeare que estava certo

Como já disse anteriormente, ontem eu encontrei alguém do passado... Parece-me deveras irônico encontrar um "defunto" na véspera do dia de Finados!!! Pensei sobre isso hoje e talvez tudo esteja muito bem arquitetado como num grande espetáculo teatral onde cada um dos vários personagens tem muito bem marcadas as suas entradas no palco da peça.
Nós somos personagens de uma história previamente escrita? Ou somos personagens de uma história que aos poucos toma forma? Por que tudo é tão brilhantemente perfeito? Por que cada entrada é tão perfeitamente ensaiada? Quando foi que nós ensaiamos as cenas dessa vida tão incerta?
E continuo me perguntando... Por que após o ensaio nós não corrigimos as falhas antes que elas fossem ao ar?
Não sei responder as íntimas questões que trouxe hoje, só sei que acredito nas palavras de Shakespeare: "All the world is a stage".

Como no mito do eterno retorno

É bem verdade que o tempo carrega sentimentos e faz com que algumas dores sejam curadas. Mas quem pode garantir que o passado não mais se colocará a sua porta?
O passado pode aparecer no seu caminho e fazer você dar a volta. Uma volta ao que está preso ao passado, ao sentimento que estava deixado de lado. Pior ainda é perceber que nada do passado mudou. É como se, não havendo prazo de validade, o que já foi tivesse sido guardado na geladeira para ser descongelado depois. Oh, ponto de ônibus, como assumiste bem o papel de um microondas!!!
E dar a volta esteve além do simbólico... ou além do concreto... Não sei! Sei que uma marca intensa do passado cruzou meu caminho e trouxe muitas lembranças. Uma visão real puxou visões imaginárias de cenas de um pretérito imperfeito, por não ser acabado.
Um passado louro, que continua reluzindo como o sol.

Saturday, October 04, 2008

Metáforas

"... as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora". (Milan Kundera)

Tuesday, September 30, 2008

Fluxo de vida

Os dias seguem e a vida assustadoramente se repete. É como o mito do eterno retorno. O presente é apenas o passado modificado, ou repaginado, para usar um termo atual.
As pessoas são as mesmas, os conflitos também. Os mesmos conflitos se diferenciam pelas pessoas que os vivem. Já as mesmas pessoas são diferentes pelos conflitos que enfrentam. Mas tudo gira em círculo.
Haverá sempre aquela sensação de 'eu já estive aqui'. Haverá sempre aquilo de já ter visto alguém em outro lugar. Poucas muitas pessoas aparecerão em nossas vidas. Algumas delas surgirão e de algum modo criarão laços conosco. Outras, por sua vez, não aparecerão mais que uma vez e nós teremos que viver com uma solitária dúvida, sem saber se aquela pessoa ainda existe.
Não importa onde você esteja. Há sempre um infinito de fatos sucessivamente se repetindo. Se você está no Iraque, talvez veja bombas... Se está em Nova York no fim de ano, certamente verá neve... Mas não importa onde você esteja, pois as mesmas coisas sempre acontecerão e nenhum de nós poderá jamais alterar a correnteza da vida.

Sunday, September 28, 2008

Surpresas

Nunca gostei muito de feijão.
Quando eu era criança, eu não gostava da casquinha, queria apenas a massa. Mas também não dava para pedir que alguém tirasse aquela casquinha e me desse apenas a massa que eu suportava comer.
Vejo que na vida há sempre preferências por massas ou por cascas. Às vezes, você deseja muito uma coisa e acredita que ela só possa estar em um determinado lugar ou que só a massa possa ser saborosa. E é difícil desconstruir idéias, conceitos previamente estabelecidos.
É como se você acreditasse que o cachorro é o animal que toma conta da casa e o gato é aquele que roça em suas pernas o tempo todo, sem jamais pensar que o gato também pode proteger e que o cachorro também pode roçar em suas pernas. Tudo que foge ao que nós acreditamos é surpresa e, algumas da surpresas que a vida nos traz são muito boas.
Mas esperar a surpresa??? Talvez esteja aí uma grande dificuldade nossa... As surpresas simplesmente são surpresas e não marcam hora no dentista nem no salão de beleza. A surpresa vem determinada por uma decisão que você toma em um segundo. É algo tão rápido que você só se dá conta depois que aconteceu. Mas é tão intenso quanto o prazer da música favorita. E é forte quanto o abraço que você mais desejou.
Eu desejei abraços que vieram da surpresa.
A partir de agora eu tentarei não separar a casquinha da massa. Minha surpresa pode estar na completude do feijão.

Wednesday, September 03, 2008

Hoje

Hoje passei o dia me sentindo cansado. Um cansaço físico... minhas pernas estavam pesando. Um cansaço mental... a cabeça pesava, os pensamentos pesavam. E além disso, ainda a terrível sensação de vazio, "aquilo" de algo incompleto...
Hoje foi um dia daqueles nos quais você consegue se agüentar.
Preciso de férias, preciso de colo, preciso de um tempo marcado para mim. Preciso passear no shopping, comprar besteira, tomar sorvete como se nada estivesse acontecendo lá fora.
Sinto que preciso tanto que minhas carências fazem com que eu não saiba de mais nada.
Preciso de um casaco de lã para o meu coração.

Wednesday, August 06, 2008

Conversa Vitoriana de Padaria

Outra dia, assisti ao filme Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility, 1995) como objeto de estudo para conhecer um pouco sobre a Era Vitoriana. Uma das cenas que mais me impressionou foi a cena na qual a mãe disse a suas filhas, personagens vividas por Emma Thompson e Kate Winslet, que quando não se tem sobre o que falar, deve-se falar sobre o tempo.
De fato, o diálogo da mãe com as filhas revela muito sobre o comportamento, sobre os tabus existentes naquela época. O que, entretanto, é mais interessante é o modo como os resquícios da Vitorian Age ainda estão presentes nos nossos dias.
Quando cheguei ao caixa da padaria, esta tarde, cumprimentei a funcionária (já velha conhecida, pois há anos compro pão nesta padaria) com um “tudo bem?”. O cumprimento costumeiro, hoje, e talvez várias outras vezes, foi seguido pelo meu comentário: “Este tempo maluco; ora faz sol, ora chove!”. Isso não lembra o que a mãe disse às filhas em Razão e Sensibilidade? Não poderia eu estar na mesma cena? Não! Eu não poderia estar lá, pois o filme é ambientado entre o fim do século XIX e o início do século XX – não lembro ao certo –, e eu, eu vivo no presente século XXI.
Mas enfim, o que tudo isso me disse foi que o presente tem mais do passado do que nós podemos imaginar. O presente é uma releitura de um passado e será relido por um futuro próximo. Estamos presos ao passado – é inevitável – e o nosso futuro estará preso ao presente de hoje.
Talvez seja hora de cuidar do presente e de tentar resgatar e guardar com carinho o passado que, ao contrário do que imaginamos, não está tão distante. Até quando se falará sobre o tempo quando não se tiver sobre o que falar?

Monday, August 04, 2008

Presentes

Queria um soneto, queria um romance, queria uma poesia...
Queria os beijos que o mundo pode dar e os abraços do Universo.
Queria uma epifania, queria uma fada madrinha, queria um sorvete de menta com chocolate.
Queria tudo, e nada.
Queria aquelas quatro letrinhas que deixam a pele mais bonita...

De véspera

Houve anos em que esperava ansiosamente pelo dia do meu aniversário. Nenhum dia no ano era tão significativo, tão importante quando o dia 5 de agosto, que, além de tudo, é feriado em João Pessoa.
Como sempre morei aqui, quando criança o dia era mágico, ou mágica era idéia de não ter que ir à escola. Eu ficava em casa, podia brincar com todos os brinquedos da minha caixinha. E também podia aproveitar os novos brinquedos que estavam chegando naquele dia. Eu via cada brigadeiro ser enrolado. Via o bolo de chocolate com cobertura de chocolate e, no fim da tarde, os parabéns. A família em volta da mesa para celebrar nada, mas a mim!
Os anos se passaram e, já não mais criança, a magia do aniversário de certo modo ainda existia. A ansiedade podia não ser a mesma, mas ela ainda estava ali. Mas foram anos, são anos que me separam daquela infância onde tudo era lúdico, tudo era celebração. Perdas, desavenças, angústias, frustrações... Tudo isso foi me levando embora as velhas borboletas que passeavam pelo meu estômago nos dias que antecediam o meu aniversário. Lá, o dia era marcado no calendário antes mesmo de o ano começar; cá, não vejo marcas na folhinha de agosto do meu calendário. Mas por que tudo mudou?
Hoje, me encontro à véspera de mais um aniversário. Não posso mentir e dizer que não me sinto um pouco ansioso. Sou egocêntrico e é bom ser o centro das atenções. Serão ligações, e-mails, scraps (que por sinal me aborrecem, pois acho fria essa forma de orkut-parabenizar). O dia ainda parará, ainda moro em João Pessoa...
Há dias e também agora, me sinto um pouco deprimido, nostálgico talvez. Por que lembrar de tudo em um único dia? Isso é tão Mrs. Dalloway... Mas não, ao contrário da personagem de Virginia Woolf, eu não queria dar uma festa e nem comprar eu mesmo as flores. Também não sei o que queria (a cada ano que passa tenho mais certeza de que sobre nada tenho certeza). A cada nova idade, tudo parece mais claro, ou seja, enxergo com os olhos mais velhos que tudo é incerto, que tudo tem dois lados.
Mas que bom! É verdadeiramente bom saber que, apesar de tudo, você está vivo e que, ainda que seja muito difícil acreditar, a esperança sempre existe, pois sempre existirá a possibilidade de se ser mais feliz; ou não.

Sunday, July 20, 2008

A vida é poesia

É deveras estranho ou talvez absurdamente óbvio o fato de eu achar o mundo poético. Na verdade é como se cada dia fosse um verso; as etapas da vida, uma estrofe; e a vida inteira, um imenso poema. Sendo poesia, os tais versos da vida são livres e brancos, não seguem métrica nem rimam entre si. A vida tem uma melodia surpreendentemente construída sem rimas e sem arranjos poéticos. Não há nada de clássico. Há apenas um desejo que segue por entre as linhas. Existe desde o primeiro dia até o dia final um sentimento que não se traduz e que dificilmente alguém entenderá. Pois é, morremos e não entendemos o tal desejo, que sufoca, tira o fôlego, levando embora qualquer vestígio de ar.
Há momentos nos quais eu sinto estranho tudo o que pareceria óbvio. É uma sensação vaga, angustiante por ser vaga. Parece-me, certas vezes, que não sei o caminho, ou que não existe caminho. Por esta e aquela razões, parece-me que meu corpo está parado e que a vida perdeu o rumo.
Tudo, às vezes, é uma questão de sentir que se sente, mas por não enteder, sente-se que não há sentimento algum. É tudo um oco infinito. Um hole, pois em Inglês o som da palavra parece mais poético, e como disse no início, a vida me parece poesia.

Tuesday, July 08, 2008

Ainda sobre saudade


Hoje, quando eu estava no estacionamento da universidade, dentro do carro esperando a chuva passar, uma pessoa passou. Passou rápido, vi pelo retrovisor, mas trouxe lembranças intensas. Não sei se é porque essa pessoa já foi, um dia, muito especial para mim, ou se é porque uma sensação de tempo passado surgiu representada por sua imagem no retrovisor.
Verdade, sinto saudades de muitas coisas vividas naquele tempo: um tempo em que os problemas não eram tantos, as obrigações eram menores e a vida, embora parecesse complexa, era bem mais fácil de ser vivida. Sinto saudades dos corredores daquele lugar, das pessoas, das conversas tolas, sem proveito. Sinto saudades dos cochilos na aula de Física, da interação nas aulas de Português. Sinto saudades das aulas que matava pelos corredores que só agora percebo como eram amados.
Vivi tudo intensamente, senti com todo o meu coração a paixão por alguém que hoje apareceu-me pelo retrovisor. Oh! tolices de um jovem apaixonado que nem sabia o que era o amor.
Não! Não quero reviver paixões do passado, mas me sinto um tanto quanto cansado do meu presente tumultoado. Cansaço por ter que cuidar de mim mesmo, com responsabilidades que naquele tempo pensei que não existissem.
Mas a vida é curta, o tempo passa e as saudades vêm. E tudo, um dia, vai passar para sempre.

Monday, July 07, 2008

Encontrei a saudade!

Uma boa limpeza é necessária sempre. É preciso arrumar desde os livros espalhados sobre a mesa até os arquivos amontoados na memória do computador. Pois bem, estava eu vasculhando meu computador (e devo dizer esta experiência é quase como vasculhar um computador alheio, pois encontro tantas coisas das quais nem lembrava mais) e achei esse belo poema de Neruda:

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
é recusar um presente que
nos machuca, é não ver o futuro
que nos convida...

Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
"aquela que nunca amou."
E esse é o maior dos sofrimentos:

Não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...

Pablo Neruda

Monday, June 30, 2008

Epifania definitiva

Acredito que todos nós um dia já tivemos (e se não tivemos, teremos um dia) a surpreendente e cruel descoberta de que caminhamos para o fim. Para mim, não sei se tal reflexão veio cedo ou tarde. Sei, porém, que desde que assisti, há algumas semanas atrás, ao documentário "Nós que aqui estamos, por vós esperamos", do diretor Marcelo Masagão, que comecei a entrar neste canal de pensamento. O documentário é uma espécie de retrospectiva do que foi o século XX, com todas as suas glórias e, principalmente, com todas as suas desgraças; e na última cena do filme, o diretor traz uma sacada inteligentíssima sobre o que é a vida e nos mostra que o fim do caminho que percorremos durante toda a vida é o fim, literalmente.
Mas as recordações, as reflexões que tive a partir do filme foram ficando guardadas, adormecidas; muito embora tenham sido responsáveis por uma forte descarga emocional. No último sábado, tudo veio à tona. De maneira forte e avassaladora, a idéia do fim surgiu em meus pensamentos sob um fluxo de consciência. E o mais engraçado de tudo isso é que as águas que me afundaram neste fluxo foram trazidas pelo espelho do meu banheiro.
Após o banho, olhei-me no espelho e percebi que, por mais que ainda tenha um rosto jovem, este já é bem diferente do rosto daquele menino que lá no fim do século XX esperava pelo ano 2000, quando completaria 13 anos. Percebi que meu rosto ainda mudará muito, virão as rugas, as marcas do tempo... A pele não será a mesma por mais dinheiro que eu gaste com cremes e produtos contra envelhecimento. Nenhuma cirurgia deixa cicatrizes tão acentuadas quanto o tempo!
Vi por aquele espelho todas as minhas preocupações e angústias. Vi as desilusões, vi a correria do dia-a-dia maluco que levo. Vi a face de alguns professores que muito exigem, vi a face de alguns alunos que muito aborrecem. Vi as exigências, os prazos. Ouvi as lágrimas de uma vida repleta de dificuldades e decepções. Senti o sabor amargo das frustrações de um homem que, embora esteja prestes a completar vinte e uma primaveras, já perdeu muito, já chorou muito, e que de certo modo sente as costas doerem como se nelas estivessem depositadas mais de trinta primaveras.
E no mais profundo instante do meu momento epifânico, enxerguei pelo espelho a coisa mais cruel que meus olhos já enxergaram: vi que nada importa! Não importa o que façamos, o quanto nos preocupemos, o quanto soframos ou choremos. Não importa o quanto trabalhemos, nem o quanto em cremes anti-rugas gastemos. A trilha que seguimos é única e muito estreita. E é ela que levará todos nós ao clímax do romance da vida: a morte!

Thursday, June 12, 2008

"I will always love you somehow"

Thursday, June 05, 2008

Cheers!

"Meu corpo é a taça para um vinho já derramado". (J.M. Júnior)



Queria beber uma taça de vinho apenas. Sentir o gosto suavemente pela minha boca e depois repousar na certeza do infinito...

"To look life in the face, always, to look life in the face. And to know it, for what it is, and at last to love it, for what it is, and then, to put it away...
Always the years between us, always the years... always, the love... always, the hours". (Virginia Woolf)

Today

Fui à cozinha depois de acordar e, pela janela, vi o sol... Enfim um dia sem chuva, um pouco mais quente até. Pelo menos a temperatura está agradável.
Mas ainda há muito gelo se derretendo dentro das veias da alma...